Segundo o Houaiss, TRABALHO é: sm. fis. grandeza que pode ser definida como o produto da magnitude de uma força e a distância percorrida pelo ponto de aplicação da força na direção desta (τ); esforço incomum; luta, lida, faina; conjunto de atividades, produtivas ou criativas, que o homem exerce para atingir determinado fim; atividade profissional regular, remunerada ou assalariada; qualquer obra realizada (manual, artística, intelectual etc.).

4 de outubro de 2007

Subemprego em debate


Na última segunda-feira, estava procurando algo interessante para ler na internet quando me reparei com o blog do Marcos Guterman, historiador, jornalista e editor do “Estadão” on-line. Ele dizia sobre o mais novo lançamento da Nike Inc., um tênis destinado aos nativos americanos,o Air Native 17, pois o formato e o tamanho dos pés dos indígenas são diferentes do que seus consumidores habituais, que gastam cerca de R$500,00 na compra de um tênis com molas, para dar a leve sensação de amortecimento.

Nos 255 comentários lidos, o que entrou em questão foi a forma de produção que a empresa criou nas fábricas instaladas nos países asiáticos. O assunto virou um grande debate entre um empresário que apoiava a forma subhumana que a corporação utiliza para fabricar seus produtos e defensores, como eu, de um desenvolvimento sem exploração.

O escândalo e o boicote

A auditoria interna da empresa divulgada em novembro de 1997 afirma que 77% dos funcionários tinham problemas respiratórios. As substâncias cancerígenas expostas excediam 177 vezes os limites permitidos no Vietnã. Esses trabalhadores, a maioria crianças, trabalham cerca de 65 horas semanais para ganhar US$ 10 (cerca de US$0,15 por hora). Além de ganharem pouco, as linhas de produção eram “boot camp”, que consiste em punições físicas e humilhações em público aos funcionários que cometiam erros, falavam demais ou desobedeciam a ordens superiores.

Com a pressão da imprensa em torno do fato, o então presidente Phil Knight recebeu cerca de 33 mil cartas de consumidores exigindo que contratassem empresas independentes para monitorar as condições de trabalho nessas indústrias. O cineasta e ativista Michael Moore lançou um documentário (com tom de sátira) mostrando as atrocidades em relações de trabalho que envolvem a Nike e, por causa da pressão do público,Knight concedeu uma entrevista a ele. O bate-papo mostra indiferença às desigualdades cometidas no Vietnã, Knight tentando mostrar a “inocência” da empresa alegando que cabe à ONU (Organização das Nações Unidas) a culpa sobre a idade mínima de trabalho nas indústrias, que é de 14 anos. Moore terminou a entrevista com uma (imparcial e tímida) promessa que, na fábrica (própria) da Indonésia o limite será de 16 anos.
Outra conseqüência foi o boicote que milhares de americanos fizeram à marca, exigindo que a empresa aplicassem as normas norte-americanas em suas fábricas fora do país.

Prestação de contas

Já no 3º Relatório de Responsabilidade Corporativa que compete aos anos fiscais de 2005 e 2006, a Nike traçou como prioridade melhorar as condições de trabalho de aproximadamente 80.000 trabalhadores; diminuir a emissão de gases, como o CO2 e F (gases fluorinados) e reduzir os resíduos no projeto e embalagem dos seus produtos. No relatório consta também os objetivos para o futuro e a superação dos problemas constatados e repercutidos na fase crítica de 1997/98.

A sede da corporação fica em Beaverton, Oregon e a empresa possui cinco subsidiárias integrais, que produzem diferentes linhas e migram conforme a favorável onda de contratação de mão-de-obra.
De acordo com notícia do jornal Valor Econômico, a Nike tem contrato de produção com 40 fábricas, 10 de calçados e 30 de vestuário, que juntas geram 160 mil postos de trabalho. Há ainda mais fábricas instaladas na Ásia (China, Tailândia, Coréia do Sul e Indonésia), no Oriente Médio (Paquistão, na fabricação de bolas) e nas Américas Central e do Sul (México, Brasil, Argentina, Honduras, El Salvador, Colômbia, Guatemala e Peru).

A Nike também investe pesado em publicidade, criando mega campanhas com artistas como Ronaldinho (e outros craques de futebol) e Michael Jordan. Além disso, os equipamentos usados na produção são modernos e conservados.

Apesar de tudo, o crescimento

O Vietnã, apesar de ter passado por uma das maiores guerras da história, está mudando o seu cenário econômico. As relações comerciais são cada vez mais crescentes e o investimento de multinacionais no país acarreta em ascendência no mercado de exportações.

Um ponto favorável para as empresas instalarem suas fábricas no país é o ramo das confecções. Uma operária do ramo recebe US$0,28 por hora, menos que na China (entre US$0,48 e US$0,76 por hora) e no Brasil (US$1,06 por hora). Com a oportunidade de pagar tão barato por mão-de-obra, as multinacionais do mercado de vestuário não perdem a chance. Isso foi a vantagem que a Nike, a Adidas e a Puma encontraram em um lugar tão necessitado de ajuda para a diminuição dos desempregados. O investimento que a Nike fez foi tão grande que a empresa é, indiretamente, a maior empregadora do país.

Já no ramo da tecnologia, a Intel Corporation investirá US$ 1 bilhão na construção de uma fábrica-modelo no sul do Vietnã. De acordo com a notícia no site do UOL de novembro de 2006, está será a sexta fábrica da Ásia e que ela faz parte do projeto de expansão da produção da empresa, que chegará a custar US$ 6 bilhões.

A partir da produção maciça de calçados, o Vietnã tornou-se o 5º maior produtor do mundo, mas o 3º maior exportador. Isso significa que a produção pouco alimenta o mercado interno, destinando 420 milhões de pares dos 450 milhões produzidos para o mercado exterior. A exportação só perde para a China (com 5,8 bilhões) e para Hong Kong (com 744 milhões). Já o Brasil produz mais calçados que o Vietnã (755 milhões de pares), mas só exporta 212 milhões, por conta do tamanho do mercado interno. O consumo interno de calçados no Brasil é de cerca de 835 milhões de pares.

Relações estreitas com o Brasil

Com o crescimento brusco de 7,4% em 2004 para 20,7% em 2006 na importação brasileira de calçados vietnamitas, eles já se tornaram o segundo maior fornecedor nessa área. E as relações comerciais com o Brasil não param por aí: além de ser um grande fornecedor de algodão, o Brasil vende commodities para o Vietnã (madeira, couro, frango, fumo, etc.) que gerou uma explosão no crescimento econômico em 2006, de 373% na venda de frango e 75% na de madeira. No mesmo ano, o crescimento na exportação vietnamita de produtos têxteis chegou a 300%.

O Vietnã tem 85 milhões de habitantes e um território de 329 mil quilômetros quadrados que, comparado com o Brasil é um pouco menos da área somada dos estados de São Paulo e Pernambuco. Com o processo de modernização em curso na China, os trabalhadores chineses têm optado por vagas nas indústrias químicas, eletroeletrônicas e automobilística. Assim, o mercado que se torna mais imbatível (e menos concorrido) para encontrar força de trabalho são nos outros países da Ásia que encontram incentivos na política e aberturas nas legislações trabalhistas.



Blog do Marcos Guterman
"Nike para índios" de 30.09.2007

Entrevista com Phil Knight (por Michael Moore)
"A Verdade sobre o Império Nike" (entrevista sem data)

3° Relatório de Responsabilidade Corporativa da Nike referentes aos anos de 2005 e 2006 (em inglês)

Jornal Valor Econômico Online
"Vietnã segue os passos da China e avança no Brasil"
de 14.05.2007 (Disponível somente para assinantes, mas há uma transcrição no site do Sinditêxtil)

Notícia do UOL
"Intel construirá sua maior fábrica de chips no Vietnã"

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