Segundo o Houaiss, TRABALHO é: sm. fis. grandeza que pode ser definida como o produto da magnitude de uma força e a distância percorrida pelo ponto de aplicação da força na direção desta (τ); esforço incomum; luta, lida, faina; conjunto de atividades, produtivas ou criativas, que o homem exerce para atingir determinado fim; atividade profissional regular, remunerada ou assalariada; qualquer obra realizada (manual, artística, intelectual etc.).

27 de outubro de 2007

Caem um, dois, três, caem quatro...

"A mais ínfima diferença na série em que sou o ponto final: em vez de mim, ávido de ser eu, haveria apenas outro. Quanto a mim, seria apenas o nada, como se eu estivesse morto."
(Foulquié, Pierre. O existencialismo. São Paulo, Difel, 1961, p. 42)

Lembro-me das aulas de filosofia do primeiro colegial. A professora de óculos fundo-de-garrafa, cabelo armado e voz de gralha explicava, em meio à classe desinteressada de alunos displicentes, a diferença entre “ser” e “existir”. Mas como toda boa nerd eu assistia a explicação vibrando de paixão, tentando ignorar os aviõezinhos de papel que voavam sobre minha cabeça. A voz maçante e vã da ainda se movimenta quadrada no meu aparelho auditivo, ainda consigo escutar a tradicional senhora de saia comprida e pêlos nas axilas- motivo de inúmeras chacotas entre o corpo estudantil, enquanto cogitavam gentilmente deixar uma gilete sobre sua cadeira- tentando fazer, da forma mais didática possível, os mimados filhinhos de papai do meu colégio entenderem Sartre. Me prolonguei nessa explicação porque gosto de escrever contos, mas vou me policiar, porque o essencial eu ainda nem disse. Fiz questão de fuçar meus arquivos empoeirados para achar o texto de apoio daquela aula. Estava lá o trecho que eu queria, sublinhado de caneta grifa-texto verde:
“Estou aqui neste mundo. Eu existo. Mas o que é existir? É mais que o simples ser. As pedras são, as flores são, as nuvens são. Elas têm ser. Mas elas não sabem disso. Não se aborrecem, não se alegram, não criticam o chefe, não têm dor-de-cotovelo.
Só o homem existe.”

(Fernando José de Almeida, FTD, 1988, pág. 29-54)

Se eu pudesse voltar no tempo- esses “ses” me correm por dentro para o infortúnio da minha saúde mental- eu teria levantado e gritado: “Mentira!”.

E a tal da coisificação?

O sistema aprisiona as pessoas- eu tento fugir das frases clichês, mas algumas são inevitáveis. As deixa cagando de medo.

Pedi demissão hoje porque não agüentava mais aquele emprego chato. Mas isso não é nem de longe argumento para os milhões de insatisfeitos. O instinto de sobrevivência sempre é maior. E quanto mais intensamente vivemos, mais a gente se avizinha da morte. Nem eu nem minha família dependiam daquele meu salário.
A vida está acima das estruturas que regem a sociedade, mas o sistema mudou o espírito do ser humano. Cagar na própria existência é uma heresia!

O emprego tornou-se vitalício, quando se tem a sorte de se arrumar qualquer coisa, se agarra com as unhas e não se larga mais. E se é submisso. O sonho onde “a existência é uma aventura de tal modo inconseqüente” não encontra espaço na realidade. Não se pode culpar quem vende a alma, os modelos centrais de controle nos programa para abrirmos mão dela de forma barata. Faz com que nos sintamos patéticos e voluntariamente abrimos mão de nossa soberania, nossa liberdade, nosso destino.

A minha empregada trabalha na minha casa há 22 anos. Era babá dos meus irmãos mais velhos, foi minha babá e hoje cozinha, limpa, lava, passa. Embora ela seja quase como uma segunda mãe, eu gostaria que ela não tivesse desperdiçado a vida dela limpando minha casa, sem nenhum mérito, reconhecimento ou promoção. E como aqui todos levam uma vida corrida, ela agüenta quieta nossas constantes respostas atravessadas e expressões mau-humoradas, além de algumas broncas injustas. Seus cabelos já estão brancos e as mãos, asperas. 22 anos. Uma vida.

No emprego do qual pedi demissão hoje, o homem que cuida da burocracia do jornal está lá há 32 anos. Eu não agüentei nem três meses! Ele tem que agüentar. Desde os gritos e as piadinhas inconvenientes do meu ex-chefe, até fingir que não sabe das falcatruas que os seus superiores escondem debaixo do tapete, além da remuneração totalmente desproporcional, que não vale uma gota do seu suor. Mas é isso ou nada.
E, em um dos dias onde o clima fica tenso naquela redação quente (ar condicionado só na sala do meu ex-chefe, o único que não trabalha ali), sem querer ele me confessou que às vezes ele entra no banheiro e fica lá fazendo hora, para não ter que encarar a encheção do chefe e ainda assim cumprir sua longa jornada de trabalho.

Outro dia deu saudade e fui visitar o colégio onde me formei. Andando pelo corredor ouvi a minha professora de matemática do ginásio, lecionando, como sempre, feito máquina, sobre equações trigonométricas. Dá aulas no mesmo colégio que se formou, ou seja, passou a vida naquele ambiente. Há 37 anos repete sobre triângulos escalenos, sem qualquer retorno, sem qualquer enriquecimento pessoal para ninguém, formando alunos que nunca mais vai ver e que nunca mais vão lembrar de uma poeira sequer daquela lousa onde ela freneticamente preenchia de números. Vão ter empreguinhos como o dela, vão mofar atrás de uma mesa de escritório. Seus olhos já estão opacos. Sempre achei que ela esperasse algum dia encontrar algum gênio da matemática, aí teria valido a pena. Coitada.
Talvez por isso a frieza da minha professora do jardim de infância, quando a encontrei nessa mesma visita. É o medo de ver o que eu me tornei, que a grande esperança que ela deposita no trabalho e que serve de combustível para ela levantar cedo todas as manhãs, é, no fundo, nada.

A geração dos hippies, libertários, que lia poesia beatnik e gritava abaixo a ditadura, sucumbiu.

Onde andam seus pais/ se cansaram da estrada?/ hippies, ingênuos e nus,a vocês não dizem nada?/ O que pensam seus pais/ da ilusão destroçada?velhos sonhos azuis/ derramados na calçadaAinda cantam velhos blues/ sobre seres com asas?ou perderam na luz/ o caminho de casa?O que sentem seus pais/ quando alguém acha graçados gentis samurais/ artesões pobres na praça?O que dói no seus pais/ é a falta de esperança?ou seu olho que vai/ onde o deles não alcança?
(Oswaldo Montenegro- Aos filhos do Hippies)

É uma vida linear, de eternas amebas subordinadas, capachos tremendo as pernas para nao ser engolida pelo sistema. Mas o sistema, meus caros, é um parasita cada vez mais voraz, empurrando o organismo social para o buraco negro da miséria. É o famigerado “nem sei o que eu to fazendo mas to fazendo”. Faz para não precisar pensar, para nao precisar enxergar. A consciência deve chegar na hora da morte. Aí é tarde.

3 comentários:

Adriana Feder disse...

só uma perguntinha: agora que nao estamos mais fazendo isso pro trabalho, aquela história do limite de caracteres liberou geral, certo???

=D

Marília Calábria disse...

Sim, pode ser!

Ursulina Lofrese Monteiro disse...

Opa opa..mais do que liberado...mas a gente pode usar uma padronização tbm neh??